Hipervisualidade e cegueira

Vinte Ver Quintana

Hipervisualidade e cegueira

A palavra palpável, densa, espessa. A palavra sublime, leve, vaporosa. Na extensa obra de Mario Quintana, a palavra tem corpo, cor, cheiro e sabor. Sua escrita fantasia, de forma lírica, o cotidiano em toda sua riqueza sensorial. A mostra Vinte Ver Quintana rememora seu legado ao mesmo tempo em que o reinventa através de um dos mais utilizados dispositivos de produção de sentido no contemporâneo: a imagem fotográfica.  O repertório de Quintana é pré-tecnológico, trata-se do mundo dos telégrafos, das máquinas de escrever, das cadernetas de anotações, dos livros de cabeceira… Um mundo anterior à eletrônica e à informática, o das cidades modernas, ainda em processo de se tornarem metrópoles. O espaço físico e concreto da cidade, a moderna Porto Alegre, recebe o espaço subjetivo e sentimental do indivíduo poeta, através de observações feitas em suas derivas, suas caminhadas. Mário Quintana, como um bom flâneur que, segundo Benjamin, afasta-se da multidão à medida que nela se refugia, tinha na cidade seu objeto poético principal e buscava em toda a sua materialidade, a textura de sua escrita.

Nestes últimos vinte anos que passamos sem Quintana não foi apenas a cidade que se modificou. Modificou-se também o modo como a experimentamos, como a visualizamos e a registramos, enfim, o modo como nela vivemos. Podemos perceber, nestes vinte anos passados da existência do Poeta, que a cultura visual pós-moderna não apenas ilustra a vida cotidiana, mas agora também a constitui. Na vida contemporânea a imagem toma o lugar da palavra como meio de comunicação, e passa a funcionar como mediadora das relações sociais, em uma sociedade na qual a representação e o espetáculo contaminam todas as esferas da vida.

A importância adquirida pela visualidade alterou significativamente o predomínio que a cultura ocidental estava acostumada a atribuir ao verbo.  Passamos a encarar o mundo como imagem, isto é, temos tendência a visualizar a existência, mesmo no caso de fenômenos que não são visuais em si. No cotidiano contemporâneo tudo o que era realmente vivido se esvai na fumaça da representação.

As imagens que aqui apresentamos ao público são o reflexo da aproximação entre a visualidade da palavra – contida na obra de Quintana – e o uso da fotografia como texto imagético, como discurso poético. No documentário Janela da Alma, o depoimento do filósofo e fotógrafo cego Evgen Bavcar, é emblemático neste sentido. Para ele linguagem escrita e imagem estão ligadas, isto é, o verbo é cego, mas é o verbo que torna visível. Sendo cego, o verbo torna visível, cria imagens… Para Bavcar, graças ao verbo temos as imagens.  Com relação à hipervisualidade no contemporâneo, ele faz uma reflexão sobre a aproximação entre texto e imagem. “Atualmente, as imagens se criam por si mesmas, deixaram de ser o resultado do verbo (…). É preciso que haja um equilíbrio entre verbo e imagem. Por exemplo, Michelangelo não viu Moisés! Ele não foi segui-lo no Monte Sinai. Não viu como o Decálogo foi lançado sobre o bezerro de ouro. Mas ele leu o texto.” É exatamente em torno desse equilíbrio entre o verbo e a imagem que apresentamos a mostra Vinte Ver Quintana, buscando na sensibilidade desses artistas e fotógrafos, dar luz às imagens mentais suscitadas a partir do verbo.

Rochele Zandavalli

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Artistas e fotógrafos convidados:

 Carine Wallauer, Chana de Moura, Clovis Dariano, Danilo Christidis, Dulce Helfer, Eneida Serrano, Fernanda Chemale, Leonardo Remor, Luciano Scherer, Luiz Eduardo Robinson Achutti, Maílson Fantinel, Manuela Eichner, Marco A.F., Marina Chiapinotto, Letícia Lampert, Paula Quintana de Oliveira Biazus, Raquel Brust, Tiago Coelho, Tuane Eggers, Vírginia Simone & Matheus Walter.

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