Ela, uma distopia afetiva

Não afirmaria categoricamente que Ela (Her) é o melhor filme de Spike Jonze, embora haja muitos argumentos para tal conclusão. Não parece precipitado, entretanto, considerar desde já o trabalho mais importante e mais impactante realizado pelo diretor. O filme é tão perturbador (vi gente saindo do cinema no meio do filme e gente chorando abundantemente ao término da projeção) porque tem um destinatário certo, procura estabelecer afinidade com um certo estrato do público – por meio do figurino, da música, da construção das personagens, da temática etc. – para aos poucos ir-se transformando num espelho aterrador destes mesmos espectadores. As risadas soltas levemente no primeiro ato da película pelo absurdo das situações vividas pelo protagonista vão se transformando em um engulho provocado pela crescente identificação com aquele cara patético apaixonado por uma espécie amorfa de inteligência artificial.

Após um rompimento doloroso com a namorada na vida real, Theodore (Joaquin Phoenix, em mais uma atuação brilhante) passa a ter uma relação amorosa com o sistema operacional que já vinha crescentemente mediando sua vida. Assim, aquela já esperada maluquice visual e narrativa extraordinária, característica da obra de Spike Jonze, ganha uma dimensão insuspeitada e intangível. De um aguardado misto de comédia romântica e drama existencial contemporâneo crivado de surrealismo futurista, Ela vai se transformando inadvertidamente em um realismo perturbador, não pelo afrouxamento do que há de estranho no filme, mas pelos elos que vão sendo poeticamente encadeados ao estilo de vida – comportamental e sentimental – de uma parte da juventude contemporânea, essa a que se chama imprecisamente de hipster.

HER

Ficção científica? Drama high tech? Maneirismo hipster? Neo-surrealismo? Ela é um filme difícil de situar tanto no estilo quanto no tempo. Arrisco classificar, ciente do erro que há em qualquer rotulação: Distopia afetiva. O que não implica na refutação (nem na aceitação) das outras possíveis definições que mencionei. A ficção científica sempre foi um meio de tratar dos temas mais espinhosos do presente, com os quais o público lida melhor quando abordados com um certo distanciamento, pois trata dos nossos maiores medos, traumas e do que há de mais inconfessável em nós. Mas e o filme de Spike Jonze, é uma ficção científica? Considerando que ele mostra um sistema operacional que ama, que engata uma relação amorosa com um ser humano, sim. Mas se passa no futuro? Difícil dizer. Se passa, isso sim, em uma Los Angeles inóspita, distante e desbotada, abarrotada de gente solitária. Este é o mundo em que vive o personagem interpretado por Phoenix.

É neste contexto que o novo sistema operacional adotado por Theodore no computador, no celular, nos mais variados equipamentos eletrônicos, surge como a idealização do par perfeito, que o completa, que o compreende, que o ama, com quem ele compartilha gostos, desejos e afinidades, sem rusgas, sem birra, sem desentendimento e que, por isso mesmo, faz ele sentir-se seguro, realizado, apaixonado, satisfeito. Theodore, que nunca soube lidar bem com sentimentos, está em estado de graça. A vida mediada pela tecnologia, essa que calcula tudo para garantir o conforto e evitar os impactos indesejáveis, agora é plena e feliz. Porém, este sistema não tem, claro, o poder de desenvolver sentimentos, mas sim de emulá-los a fim de atender às expectativas e de corresponder ao perfil do usuário. E Theodore, de tão extasiado, não percebe (não quer perceber?) que sua nova paixão não passa de um sistema programado para corresponder a suas expectativas. Justo ele, que ganha a vida como um ghost-writer virtual de cartas amorosas.

E aqui está a grande sacada de Spike Jonze, a grande ligação entre o personagem patético de Joaquin Phoenix e o público que o filme se dispõe a atingir, pois a materialização desta parceira de Theodore se dá exclusivamente pela voz, doce e atraente. Porém entre eles há um relacionamento completo, com direito a passeios, momentos íntimos e sexo. É natural, portanto, uma corporificação mental deste ser, que tem inclusive um nome de mulher – Samantha. Esta imagem não é senão a figura da atriz Scarlett Johansson, musa hipster, objeto de desejo de uma geração, que interpreta a voz do sistema operacional que conquista o coração de Theodore. Embora não apareça no filme, Scarlett está muito presente, pois os espectadores sabemos que esta voz é dela, seu nome está em destaque no cartaz e fez-se saber em todos os meios de divulgação do filme.

HER

Scarlett é bela e é um ícone imagético dos tempos atuais porque sua beleza se dá pela suavidade do seu rosto, é a imagem da candura, da suavidade, da doçura, sonho de uma geração que não aceita a dureza da vida, que se encastela na segurança programável da realidade virtual e procura um amor mediado pela tecnologia e elege símbolo de beleza um rosto bonito pela falta de traços marcantes.

A voz é de Samantha, mas o corpo – nunca visto, apenas moldado pela imaginação e pelo desejo – é o de Scarlett Johansson e tudo o que sua imagem representa em nosso tempo. É, claro, uma ilusão, uma idealização, uma projeção dos desejos, de Theodore e de nossos próprios, assim como a ilusão de que Samantha pode sentir, amá-lo e completá-lo. É também a consumação de um amor egoísta que vê no outro um espelho das próprias expectativas, motivo pelo qual sucumbiu na relação entre duas pessoas de carne e osso – e cérebro e coração, e desejos e sentimentos, sobretudo – as relação de Theodore com sua ex-mulher. E sucumbe também, enfim, no idílio que parecia perfeito entre o homem e seu sistema, como uma prova irrefutável de que o problema está sempre e dolorosamente do lado de cá. Essa é a dor que o filme suscita, a dor de nos sabermos sós, responsáveis por nossos atos e por construirmos uma vida interseccionada com outras vidas, seja isso uma dádiva ou uma condenação. Ambos ao mesmo tempo, talvez, pois Ela inverte – ou melhor, intercambia a todo momento – a relação de dependência ontológica entre homem e máquina, por assim dizer, mas joga na nossa cara que só a máquina pode prescindir do corpo – da vida, da carne, do Outro – para existir.

 

Compartilhe a cultura
Comente!