Alabama Monroe: a insustentável dor de cada um

Indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Alabama Monroe tem, de cara, o mérito de tratar com leveza de um dos temas mais delicados que pode haver: a doença e morte de uma criança. O filme belga (coprodução holandesa) baseia-se na oposição, súbita e intensa, entre felicidade e tristeza, serenidade e desespero, alegria e dor. Para enfatizar esse desabamento de uma vida feliz em uma tragédia insuperável, o roteiro lança mão de numerosos e muito bem utilizados pulos temporais na narrativa, em que momentos de idílica satisfação são seguidos na montagem do filme por sequências de desamparo e amargura. Uma linha tênue em que se corre o risco de cair, de um lado, em um dramalhão apelativo de fácil e superficial catarse por parte do público (pois não há como não obter o efeito de comiseração quando se leva à tela a história de uma criança à morte), e de outro, de um tratamento pueril e frágil de sobre um tema tão dramático. Linha que o diretor Felix Van Groeningen conseguiu trilhar sem cair para nenhum dos lados.

Montagem de Alabama Monroe cria sucessão de alegrias e desespero

Montagem de Alabama Monroe cria sucessão de alegrias e desespero

Falado em flamengo, Alabama Monroe conta a história de amor entre Didier, um aficcionado pela cultura estadunidense que toca banjo em uma banda de bluegrass, e Elise, uma tatuadora que faz do próprio corpo uma espécie de memorial de sua biografia emocional, cobrindo com novas tatuagens as que trazem recordações indesejáveis, sobretudo as de ex-namorados. Após o amor à primeira vista, Elise muda-se para o rancho onde Didier mora em meio à natureza e aos animais, passa a ser a vocalista da banda e engravida. O nascimento da cativante Maybelle só aumenta o clima de alegria na simplicidade vivido pelo casal até que, aos 6 anos, a criança é diagnosticada com leucemia e muda para sempre a vida de Elise e Didier.

Após a morte de Maybelle, o casal tenta com todas as forças lidar com a perda. Didier e Elise apoiam-se um no outro até que a dor, a angústia e o vazio deixado pela ausência da menina transforma a convivência dos dois em uma troca de acusações e busca no outro de uma culpa que não é de ninguém. Todos aqui são vítimas, primeiro vítima da situação; depois, quando a desolação encontra escape na mágoa e no ódio, vítimas de si mesmos, de suas atitudes tresloucadas e autodestrutivas. Não há culpados, não há solução, cabe aos pais tentar conviver com essa ferida sempre doída, com essa lembrança que não se pode ocultar debaixo de uma nova tatuagem.

Didier e Elise: a busca de culpados quando todos são vítimas

Didier e Elise: a busca de culpados quando todos são vítimas

A cisão do casal se dá principalmente pela forma antagônica com que ambos encaram a perda da filha. Enquanto Didier, ateu convicto, desenvolve um ódio agressivo contra aqueles que, em nome da religião, opõe-se aos avanços científicos que poderiam salvar Maybelle (representados na figura de George W. Bush), Elise prefere apegar-se à crença de que sua filha ainda está presente, em outro plano, em outra dimensão, mas de alguma forma (um pássaro?) está ali transformada, não se foi. É nesta cisão, mais metafísica e discursiva do que real e prática, mas que não por isso afeta menos a vida dos envolvidos, que reside o ponto central não exatamente da trama, mas da problemática que o filme propõe. E aqui não importa tanto a “verdade” sobre a metafísica da vida, mas sim o papel que a religiosidade pode ter na vida dos indivíduos e, por outro lado, a influência (obscurantista, na visão de Didier) que a religião pode ter, e tem, sobre a civilização.

Pontuado por números musicais, cheio de momentos melancólicos e dramáticos, Alabama Monroe é um filme sobre o que não se apaga nas trajetórias humanas, o que não cicatriza; e sobre as maneiras que as pessoas encontram para conviver com essas dores dilacerantes e indeléveis.

ALABAMA MONROE
(The Broken Circle Breakdown, Felix Van Groeningen, BEL/HOL, 2013)

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