A Doce Vida dos Lobos

O cinema de Martin Scorsese é crivado de personagens obsessivos que, de tão obcecados, transitam no limite tênue entre a lucidez e a loucura, a persistência e a alucinação, a ideia fixa e o fanatismo. Esta característica já está presente em seu primeiro longa, Quem bate à minha porta, de 1967, em que o personagem extremo é vivido por Harvey Keitel. Mas os atores de Scorcese com a cara e o talento para viver esses homens exagerados foram Robert De Niro no passado e Leonardo DiCaprio no presente. De Niro como o Touro Indomável, o Taxi Driver ou o amedrontador antagonista de Cabo do Medo, DiCaprio como o Aviador, o atormentado protagonista de Ilha do Medo, e agora, em uma atuação visceral, O Lobo de Wall Street, mais recente filme do realizador ítalo-americano.

Antes de tudo, O Lobo de Wall Street trata de uma louca obsessão. E se o filme foi acusado (injustamente, na visão deste que escreve) de “glamourizar” a vida de desbunde do protagonista Jordan Belfort (personagem real interpretado por DiCaprio) é porque esta obsessão atingiu, sobretudo na sociedade estadunidense, status de delírio coletivo, compartilhado, porque histórico e cultural. É como se Scorsese estivesse sendo acusado de trazer a tona as últimas consequências dos mais inconfessáveis desejos de seus espectadores, descerrando um espelho atroz e indesejado. Daí a resistência e os apupos morais de grande parte do público.

O Lobo de Wall Street conta a história (baseada no livro autobiográfico – best-seller, destaque-se – de Jordan Belfort) de um especulador financeiro que, partindo do zero e por suas próprias forças e “talento” (aspas necessárias), torna-se multimilionário em pouquíssimo tempo, graças à sua ganância feroz e a nada honestas e muito lesivas operações no mercado financeiro. Só que Scorsese sempre fez da realidade bruta a matéria fundamental de sua obra, mas nunca com a intenção de pôr no centro de suas narrativas uma denúncia social ou política – muito menos econômica -, e sim porque sempre trabalhou no plano do realismo (ou de um “ultrarrealismo”) como forma de mostrar o homem na massa, e não a massa no homem. Quero dizer, não se ataque um filme pela ausência do que ele não pretendeu oferecer ou problematizar. Não se reduzir, no presente caso, a um julgamento ético ao estilo preto-no-branco e nem se pretender um panorama pedagógico das causas, processos e consequências da especulação financeira não é um pecado. E se essa ausência reverte ou frustra as expectativas de quem assiste, talvez seja interessante procurar um significado nisso.

Jordan Belfort, a última consequência do mito do self made man

Jordan Belfort, a última consequência do mito do self made man

Está claro em todos os pontos que essa história é narrada por dentro. Vale aqui a profusão de ganância, desejos e satisfação de seus protagonistas como motor das mais imorais atitudes. O desejo de Belfort e seus seguidores de acúmulo financeiro como fiador da mais extravagante e irracional ostentação e da satisfação imediata, superficial e ilimitada dos prazeres efêmeros, notadamente sexo e drogas, é voluptuosamente jogado na tela à exaustão. Mesmo com a montagem rápida e o ritmo intenso, a euforia denotada nas atuações e na misé-en-scene, as festas em iates, casarões ou na própria companhia de Belfort em Wall Street acabam inevitavelmente redundando em esgotamento nas três horas de projeção.

O mal-estar que o filme causa, porém, está longe de ser um defeito. Se, visto como entretenimento, o cinema tem o dever de agradar, divertir e confortar, como arte ele tem o direito de incomodar, provocar, confrontar. Scorsese, mestre no uso da linguagem cinematográfica e tão obcecado por filmes quanto Belfort por dinheiro, foi buscar (tese) na Doce Vida de Fellini (de quem é fã incondicional) a inspiração para descambar intencionalmente da exaltação extrema para o desconforto pelo sem-sentido daqueles excessos todos, pelo vazio daquelas vidas tidas como bem-sucedidas. Tudo isso, em Scorsese assim como em Fellini, coberto por uma estética grotesca, que sobressalta o mau-gosto e a cafonice ostentatória daquela gente que constrói sua identidade calcada no que o dinheiro pode não só comprar, mas sobretudo distinguir.

Como chefe da matilha de lobos que formou em sua empresa de negociação de ações, o personagem de DiCaprio parece dizer: “não fui eu que inventei a selva, não me culpem pela selvageria”. Pois se o homem é o lobo do homem, vence o lobo mais feroz. Se o mito do self made man tem status sacro na cultura individualista-capitalista, Belfort é sua consequência mais radical. Este é, ao menos, seu discurso, seu álibi.

As cenas em que um DiCaprio ensandecido (pelo efeito da fortuna e das drogas) empunha o microfone em sua empresa que mais parece um hospício ou uma rave e grita discursos motivacionais para despertar a ávida ganância de seus funcionários se assemelham ora a uma matilha de animais ferozes, ora a uma fanática seita religiosa, cuja religião é o acúmulo e deus é a grana. Nuances muito mais mordazes que a denúncia de que Scorsese foi acusado de não fazer.

DiCaprio comanda a matilha. Ou a seita?

DiCaprio comanda a matilha. Ou a seita?

Convenhamos, é muito difícil fazer de um protagonista detestável, grosseiro e torpe (um criminoso, para ser direto) um personagem com algum charme, alguma empatia, ainda que calculada. Não seria, porém, razoável crer que uma pessoa apenas com más qualidades pudesse construir uma fortuna por meio de um trabalho que depende sobretudo do convencimento. Scorsese é hábil em construir personagens assim. DiCaprio também. E o ponto alto de sua atuação notável é a diversidade de comportamento, sedutor e persuasivo com os clientes, inspirador e influente (e persuasivo) com sua equipe, arrogante e dominador (e persuasivo) com os demais, cínico e dissimulado com todos. De suas habilidades, a maior talvez seja a da autoindulgência, pois justifica reiteradas vezes, sem crises, suas práticas desleais. Enfim, ele construiu sua riqueza explorando a ganância dos outros, ele não fez nada que todos os outros não fariam se tivessem a gana, o talento e a coragem para tal, ele chegou onde todos fariam tudo para estar. Ou seja, ele é o efeito colateral, o outro lado da moeda (nem tão “outro” assim) do ultracapitalismo que o mundo vive hoje, capitaneado pelos Estados Unidos.

Ironia avassaladora é o fato de que no fim, na realidade e no filme – em uma cena prenhe de significado catártico -, Belfort ganha a vida como um bem-sucedido palestrante, que ensina aos (muitos) interessados como ganhar dinheiro e enriquecer. Essa história não é tão preto-no-branco que caiba em um denuncismo moralista. Scorsese não caiu nessa simplificação. Escancarar essa complexidade foi seu trunfo.

O LOBO DE WALL STREET
(The Wolf of Wall Street, Martin Scorsese, EUA, 2013)

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