Cores: vidas pequenas em uma cidade hostil

Filmar o marasmo, a indecisão, a estagnação, a inércia, o nada, é tarefa sempre desafiante. Lembremos que o cinema é composto de imagens, som e(m) movimento. Aristóteles ensina, em sua Poética, que a matéria da tragédia não é a imitação de homens, mas de ações. Em Cores, o diretor Francisco Garcia assume o desafio e o risco de tratar justamente desses temas.

A história orbita em torno de três amigos, todos com idade em torno de 30 anos : Luca, um tatuador que montou seu estúdio nos fundos da casa da avó, com quem mora; Luiz, funcionário de uma drogaria na qual faz tramoias envolvendo medicamentos tarja preta para, junto a bicos com sua moto, complementar a renda minguada; e Luara, namorada de Luiz que sonha viajar pelo mundo – ela é vendedora em uma loja de aquários e peixes ornamentais e mora ao lado do aeroporto, onde fotografa distraída as partidas e chegadas dos aviões. Eles arrastam por São Paulo suas vidas sem perspectivas e sem grandeza tentando sobreviver a um mundo um tanto hostil e a sua própria confusão – ou falta – de propósitos.

Angústia e torpor em um retrato distópico da juventude

Angústia e torpor em um retrato distópico da juventude

Altamente influenciado pelo cinema do estadunidense Jim Jarmusch, seja na fotografia em cru preto e branco, na trilha sonora ativa e pulsante e devaneante, nas situações a um só tempo comezinhas e inusitadas ou no mal-estar em que vivem seus personagens deslocados no mundo (na cidade suja, desordenada, sórdida) – um pôster de seu filme Estranhos no Paraíso aparece uma porção de vezes nas paredes do estúdio/quarto de Luca –, Cores apresenta uma grata profusão de cenas e tomadas poeticamente prenhes de metáfora visual e narrativa. Há, por exemplo, uma cena belíssima em que Luca, fardado com o uniforme da Aeronáutica do falecido avô, desperta a avó que dormia na poltrona da sala e ensaia uma dança de salão com ela, imitada em seguida por Luara e Luiz. Cenas pungentes e poeticamente tão ricas quanto despojadas de enfeites desnecessários, que pontuam poeticamente aquelas pequenas vidas perdidas em um início de século que parece ser o túmulo de qualquer grande aspiração, individual ou coletiva.

O trio de amigos parece ser refém inescapável da mediocridade e da angústia. Sua geração não viu os tempos de esperança coletiva em um mundo melhor que viveu aquela que enfrentou a ditadura. Eles também não são parte da geração, posterior à sua, que cresceu sob os auspícios da sociedade em rede (já eram jovens ou adultos quando as redes sociais se estabeleceram, em nenhum momento os personagens aparecem se relacionando via aparelhos tecnológicos). Não são socialmente excluídos nem privilegiados. São, portanto, típicos personagens, comuns, desimportantes. A dinâmica de Cores, no entanto, se constrói justamente sobre esse misto de angústia e torpor diante do vazio. E sua força como obra artística nasce das já aqui referidas cenas poéticas e altissonantes, casando misé-em-scene, fotografia, música e atuações para conceber a atmosfera de angústia latente e desesperançado marasmo. As cenas pesam mais que o enredo, a insinuar que a vida do trio  protagonista é pautada por pequenos e efêmeros momentos de diversão e delírios de uma outra vida que desejam mas, sabem, não existirá.

Cores, um filme mais de cenas que de enredo

Cores, um filme mais de cenas que de enredo

Porém, o realizador do filme parece não acreditar na força das ótimas cenas que criou, pois insiste em explicar nas falas as ideias e sentidos tão bem imageticamente engendrados nelas. Um exemplo: Luara, a mais sonhadora e ao mesmo tempo mais realista dos três (ela sonha em viajar e conhecer o mundo e aposta no trabalho, por pior e entediante que seja, para juntar o dinheiro necessário a realizar o sonho), é filmada através de um aquário na loja em que trabalha, como se ela mesma estivesse dentro daquele aquário, em uma bonita metáfora sobre sua vida presa a uma realidade mesquinha. Em outra cena, um cliente da loja que a assedia galantemente convida para viajar com ele e diz algo como: “você não pode viver a vida toda presa em um aquário”. Este excesso de explicação verbal (grande responsável por estragar a maioria dos roteiros potencialmente bons do cinema hollywoodiano) diminui a força poética das cenas tão bem artificiadas por Francisco Garcia, mas não a vigorosa experiência estética que elas proporcionam, e é isso que garante a grandeza do belo Cores.

CORES
(Francisco Garcia, Brasil, 2013)

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