Danilo Christidis: “Fotografar é pintar com a luz”

Danilo Christidis

Danilo Christidis

Danilo Christidis é fotógrafo, sócio e integrante do corpo docente da Fluxo Escola de Fotografia Expandida que, segundo o próprio, é “um ponto de encontro da fotografia autoral em termos de ensino, reflexão e produção”.

Enquanto prepara o Curso Básico de Fotografia Expandida, que acontece entre 07 e 31 de janeiro, ministrado em parceria com Amauri Fausto, ele aproveita para responder nossa entrevista e divagar pelo universo da captação de imagens. “O aluno sai do curso sabendo operar seu equipamento mas também sai da Fluxo vendo as coisas de maneira diferente”, adianta Christidis.

Amante da antropologia, ele busca origens e faz de seu olhar um instrumento social para proteger histórias, como a das comunidades indígenas. Há quatro anos, desenvolve um projeto em co-autoria com os Guarani-Mbyá através do Vherá Poty, cacique da aldeia de Itapuã. “Em 2008, comecei a realizar oficinas fotográficas com ele e o resultado foi tão  fantástico que decidimos escrever um projeto em Lei Rouanet para publicar um livro de fotografia, que será lançado no segundo semestre de 2013″, explicou. Aqui ele bate um papo sobre percepção de mundo, diversidade, sensibilidade e, por que não, uma pitada de técnica. Confira:

O que é preciso para ser um bom fotógrafo?

Não acredito que haja uma fórmula que separe um bom de um mal fotógrafo, afinal de contas, o que pode significar um fotógrafo? Trabalhar com isso? Fazer boas imagens? Não se resume a isso, não tem manual.

Danilo Christidis, Da serie Seres da Mata

Danilo Christidis, da série Seres da Mata

De alguma maneira, o fotógrafo é alguém que se propõe a perceber o mundo para além da forma habitual. E ele deve ser, um interlocutor imagético que atravessa uma captura por todos os seus sentimentos dando forma a eles, propondo uma leitura ou uma descrição de mundo. É quase como um mediador entre a imagem o mundo espectador. O que cada um significa em relação aquilo foge de seu comando. Cada um possui uma descrição de mundo, composto de seus signos e contaminações, na fotografia, ao menos na autoral, não é muito diferente, e por isso é tão interessante, expõe uma heterogeneidade de pensamentos. Isso é bem anterior à fotografia. Então, pra eu ser um bom fotógrafo, preciso entender das minhas inquietações com o mundo ou ao menos ter claro quais são os meus questionamentos para através da câmera propor um diálogo de transposição, dar forma a um discurso. Quanto a parte técnica… Entendamos da luz… Mas antes, bem antes, vem o que está por trás do equipamento… vem a atenção a si e ao mundo.

Ah… É fundamental ser um pouco obcecado por seu processo criativo e arejado ao mesmo tempo, ser um bocado chato consigo mesmo, sem ser muito rígido, atento, observador e esforçado.

Danilo Christidis, Da serie Seres da Mata

Danilo Christidis, da série Seres da Mata

Qual a missão da Fluxo?

A Missão da Fluxo é facilitar aos alunos o encontro com a autoralidade através do estímulo do processo criativo, para que cada pessoa possa ir ao encontro de uma linguagem visual própria.

Fala um pouco sobre o Curso Básico de Fotografia Expandida. O foco fica na
técnica ou no desenvolvimento da percepção?

Bom, o curso básico sintetiza bem estes dois lados. Eu gosto de dizer que ele é bem mais focado em uma educação visual e numa facilitação de encontro a uma autoralidade do que necessariamente um curso focado na parte técnica. Mas a gente não consegue executar a foto que está antes na nossa cabeça se não temos um domínio técnico, e isso se resolve com um bocado de prática e entendimento do equipamento, que responde as tuas decisões. Este é um ponto de extrema importância: colocar-se como senhor de seu equipamento. Ele nunca faz nada sozinho. Digo durante o curso para que se observe muito a luz do mundo, a luz das coisas, porque fotografar é pintar com a luz e a fotografia acontece antes ou quase ao mesmo tempo da captura da cena. É importantíssimo entender que é a luz que traz a dramaticidade, e ela que vai impregnar de suavidades uma imagem.

Danilo Christidis | Da série Exorcismos Urbanos

Danilo Christidis | Da série Exorcismos Urbanos

No curso básico focamos muito no processo criativo e prática fotográfica. A fotografia é uma linguagem por ela mesma e deve ser aprendida a partir dela mesma, não apenas por discursos ou lâminas de apresentação. Durante curso, utilizamos alguns elementos de outras linguagens artísticas pra pegar o aluno de surpresa, mas isso eu não posso falar porque acabaria com a “efeito´´ das próximas turmas.

Teu trabalho instiga na medida em que provoca a reflexão a cerca de temas
como meio ambiente, comunidade indígena… Qual a mensagem da tua foto? 

As imagens refletem bastante  do que tenho de inquietações em relação ao mundo. A relação entre cidade e natureza bem como os povos originários e a sociedade me intrigam muito e norteiam meu trabalho fotográfico. Tenho um amor profundo pelo  planeta, compartilho da ideia de que é um ser vivo e de que a natureza é viva e possui consciência. Procuro me relacionar com isso respeitosamente e com um profundo sentimento de gratidão. Quando retrato a natureza , por exemplo, tento exaltar ao máximo a beleza que vejo nela. Gosto de contemplar. Gosto de acampar em lugares onde não tenha ninguém pra me inundar somente com a presença daquele contexto, no máximo uma boa companhia e a minha labradora, a Cigana. Em relação aos povos indígenas, tem aí uma grande curiosidade acerca de seres humanos que estão aqui há bem mais tempo que a gente, por exemplo, na maneira como se relacionam com a natureza e isso sem dúvida, é uma questão de justiça social. Não entra na minha cabeça  o crime histórico que foi cometido, e que segue sendo cometido, em prol de um tipo de desenvolvimento imbecil e vazio.

Campesinos

Campesinos, por Danilo

 O que de mais interessante você já captou e o que ainda estás buscando?

Não gosto de colocar em lógicas de classificação ou hierarquia de importância acontecimentos ou fotografias. Acho que cada coisa levou a outra e por isso todas elas são muito valiosas. Poderia dizer que existiram algumas “curvas” que fizeram toda a diferença na minha trajetória e aí sim proporcionaram fotos que tenho muito carinho. As primeiras viagens ao Peru, em 2005, da qual extraí minha primeira exposição, chamada “Campesinos”. Ela retratava manifestações indígenas importantes naquele período, na cidade de Cusco. Através destas fotos, fui convidado a expor na Alemanha em 2007, o que me levou logo depois a ir viver em Barcelona. De lá fui pra ilha de Formentera, onde vivi por nove meses.

La policia, Danilo Christidis.

La policia, Danilo Christidis.

Nesta jornada, há duas imagens das quais gosto muito: uma delas é a de um senhor de costas para uma fileira de policiais e a outra é a de um grupo de amigos totalmente nus caminhando na parte baixa de um penhasco onde o mar quebrava,  antecedendo um salto.

isla-de-formentera

Isla de Formentera

Foram momentos que vivi intensamente e falam da liberdade do ser humano. Daí por diante tem esta vivência com os Mbyá Guaranis, que é fascinante e já leva 4 anos. São pessoas de uma sabedoria e uma beleza incrível. É uma grande honra e oportunidade poder estar próximo destas pessoas e poder, de alguma maneira, compartilhar isso com o mundo através da fotografia. Cada saída de campo é sempre de uma densidade e de um aprendizado fantásticos. São todos únicos. Este ano (2012) comecei um trabalho novo , mais experimental em fotografia analógica. Algo com sobreposições, que trata do conflito entre meio ambiente e cidade. Está em produção e ainda ficará encubado por um tempo. Em 2013, farei uma nova incursão pelas malhas da cidade também, algo que cruze fotografia e arte urbana. Além disso, tem a Fluxo, que é algo fantástico e que hoje coloco muito da minha dedicação. Em 2013, teremos artistas e fotógrafos incríveis passando por aqui, tanto nos cursos, quanto nas exposições, workshops e demais atividades da escola… o fluxo vai ser bonito.

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